Destaque Single || Os 45 rotações do boom
Capa e contracapa do single
Capa e contracapa do single.


Estou além / Povo que lavas no rio
ANTÓNIO VARIAÇÕES

Classificação: 5 estrelas

Audição: Vinil



Um duplo lado A de luxo
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© António Luís Cardoso [11.Abril.2010]


O disco
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António Variações - 'Estou além/Povo que lavas no rio'O presente disco substitui o projecto para um registo discográfico de estreia que estava na cabeça do artista: “Toma o comprimido” no lado A e “Não me consumas” no lado B. Nenhum dos temas será alguma editado pelo artista – a maqueta do primeiro e o segundo (gravado nas sessões de “Dar e receber”, mas não incluído no LP) serão integrados em “A história de António Variações – entre Braga e Nova Iorque”, em 2006; mas “Não me consumas” chegará antes ao público, recuperado pelos Humanos, em disco homónimo de 2004.
Acabou, em acordo com a editora, por optar pelo irresistível e dançável “Estou Além”, e por uma versão arrojada do fado de Pedro Homem de Mello/Joaquim Campos e celebrizado por Amália Rodrigues, “Povo que lavas no rio”, versão esta que o tornaria um single polémico – também editado em maxi-single, formato de sucesso dos anos 80, o qual permitia “esticar” um tema ou incluir mais músicas.
Pois bem, a polémica foi mais no espectro do fado, entre os mesmos puristas que depois se escandalizaram com Paulo Bragança ou, mais recentemente, com projectos que recuperam alguma identidade no fado – como A Naifa ou Deolinda (os Hoje, com o disco 'Amália Hoje', não terão sofrido do mesmo problema pois, desde o início, não há pretensões de reinventar a canção nacional, mas tão só desenvolver um projecto pop com canções antes interpretadas pela fadista). Porque, em boa verdade, o êxito maior nas rádios e entre o público foi “Estou além”, canção com uma letra existencialista, de um certo desconforto, conceito que estará bem presente em toda a estética musical de Variações. Podemos descortinar na carreira do artista esse paradoxo, com a alegria do visual e das canções, mas uma tristeza nas palavras, embora, ainda assim de uma ironia mordaz (como em “...Que pena seres vigarista”, incluída em “Dar e receber”).
Qualquer uma das canções personifica um lado único, sem A e B. O célebre duplo lado A. E são duas belas opções de estreia, vincando desde logo um estilo indefinível, ainda hoje, oscilando entre a pop e a música tradicional (seja o folclore ou o fado). A ideia de Variações, hoje célebre, continua a ser a melhor definição da sua música: qualquer coisa "entre Braga e Nova Iorque”.


A capa
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A capa foi pensada, de igual forma, para não ter lado A nem B (os dados que por norma surgem na contracapa dos discos, como o n.º de série e a editora, estão apostas nos dois lados, tanto no single como no maxi-single). E como as capas posteriores dos discos de Variações, é na sua figura, excêntrica e esteticamente apelativa, que se centra, tanto num grande plano, como numa foto de corpo inteiro. Na primeira, olhando distante e ressaltando uma roupa a recordar os “hippies” das décadas anteriores; na outra, fitando, desafiador fotógrafo e o mundo.
O arranjo gráfico, nomeadamente tipográfico, é discreto mas irrepreensível. O logótipo tornar-se-á uma das imagens do artista, com a sua efígie recortada no “A” de António.



Bibliografia:
ARISTIDES, Duarte, "Memórias do Rock Português", ed. autor (3.ª), 2008

Links:
Música Portuguesa - Anos 80
Under Review
A história de António Variações

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Em jeito de remate: a classificação que vou atribuindo aos discos serve apenas como referência, uma "bitola" pessoal que, diga-se em abono da verdade, tem muito mais a ver com uma saborosa nostalgia e gosto próprios do que qualquer opinião especializada.
museudobooom@gmail.com