Rock português: filhos de um pai desconhecido? Breve História do 'boom' em dez passos.
As rockeiras nacionais.
VII. Irreverência no feminino

A qualidade musical não tem sexo e, de alguma forma, é injusta tal sectarização. Porém, é pertinente verificar como as vozes femininas estiveram quase sempre presentes na história da música moderna portuguesa muito embora o pop-rock luso tenha a tendência de se comportar como um autêntico "clube dos rapazes". Há três nomes incontornáveis durante o "boom": Lena d'Água, Manuela Moura Guedes e Adelaide Ferreira. A primeira tem um percurso anterior a tal fenómeno, na segunda metade dos anos 70, como a participação nos Beatnicks ou a colaboração em "Ascenção e queda" dos Petrus Castrus, editando ainda dois discos (LP e single) de vertente mais dedicada à música infantil.

Salada de Frutas – 'Robot'(teledisco, arquivo RTP) Lena d'Água – 'Perto de ti'(Programa 'Deixem passar a música', 1986, arquivo RTP) Seja com os Salada de Frutas ou em nome próprio (numa primeira fase juntamente com a Banda Atlântida), a menina bonita do rock português lega-nos trabalhos de qualidade e injustamente relegados para uma divisão B por massas (demasiado) cinzentas da crítica portuguesa – veja-se o ostracismo da sua homenagem a Variações, "Tu aqui" (1990), por oposição ao recente projecto "Humanos". Manuela Moura Guedes, depois de dois singles a piscar mais o olho à música ligeira, intromete-se no fenómeno do "boom" com dois excelentes trabalhos discográficos: o single "Flor Sonhada" – cujo lado B, "Foram cardos, foram prosas", é que se tornou um sucesso enorme, com letra de Miguel Esteves Cardoso e música de Vitor Rua –, e o LP "Alibi", quase, quase um álbum dos GNR (banda de suporte, acrescendo ainda as letras, todas de Rui Reininho).

Baby suicida'(teledisco, arquivo RTP)Quanto a Adelaide Ferreira, pena é que, durante o "boom" apenas nos tenha deixado dois singles e um maxi-single. Seria interessante verificarmos um 33 rotações dessa fase em que se revelava um misto de furacão de palco e de voz portentosa. O 1º álbum chegará já longe destes anos loucos e já num registo mais ligeiro (embore volte ao rock noutras experiências discográficas). Em águas menos agitadas paira Né Ladeiras, mítica vocalista da Banda do Casaco, que, após a experiência com os Heróis do Mar em "Amor" (lado B do maxi-single), é justamente apadrinhada por Pedro Ayres Magalhães na sua aventura a solo ("Alhur" e "Sonho Azul"). Aliás, a Banda do Casaco, grupo sempre difícil de situar na música – ou fácil: boa música! –, privilegiou sempre as vozes femininas; entre outras lembremos Cândida "Branca Flor" Soares, Gabriela Schaaf, Concha ou Mila (irmã de Adelaide Ferreira).

Da época do "boom", referência ainda para a vocalista dos Rock & Varius/Roquivários, Midus – que quase por força das circunstâncias (teve de substituir um elemento que saiu da banda) se tornou uma excelente baixista, com carreira internacional –, as Damas Rock ou, já numa segunda geração de oitentas, Xana dos Rádio Macau.

Em redor do universo pop-rock mas não indiferente a esta explosão musical lusa de inícios de 80, temos nomes como a Dina, a Lara Li, as Cocktail ou as Doce. Embora seja um género musical mais ligeiro que eventualmente pop, certo é que são uma referência. Senão veja-se o recente repescar de "Bem Bom" destas últimas, por Rui Reininho.

Hoje, os projectos com marca feminina não se contam pelos dedos de uma mão e o "clube dos rapazes" está a diluir-se. Para deleite dos tímpanos de todos nós, "menina também entra"...

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O Boom
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