Rock português: filhos de um pai desconhecido? Breve História do 'boom' em dez passos.
Diversas imagens de discos de rock português
II. Anos ainda a quente, agora pelo Rock

Perguntamo-nos sempre o que terá originado essa autêntica histeria. Porque desataram os portugueses a pular com o pop e o rock português?

Uma coisa é certa, olhados com desconfiança por alguns sectores mais eruditos (leia-se de intervenção, popular portuguesa, tradicional), os personagens do 'boom' e este próprio trarão abertura a outras músicas. Que o digam os Trovante ou o Jorge Palma; ou José Mário Branco que, num impulso 'modernista', até lança um maxi-single! Ou os vários conjuntos de música popular portuguesa, como os Terra a Terra. Até a sempre inovadora Banda do Casaco, sem ter de provar nada a ninguém, parece não estar imune aos novos tempos, aos sons mais eléctricos, com o seu "No Jardim da Celeste". Mas como tudo isto aconteceu?

Seria algo inevitável, face a anos de censura, primeiro, em que os bons projectos (como "Mestre", dos Petrus Castrus, de 1973) eram cerceados, ou então, muitas das vezes decalcados dos grupos de sucessos internacionais (o chamado "ié-ié", anos 60, está pejado de exemplos), e, depois, já no advento da Liberdade, face à ocupação quase total da música portuguesa pelos chamados "baladeiros" e/ou cantores de intervenção (Zeca, Godinho, Fausto, Mário Branco, etc.).

Tantra - 'Mistérios e maravilhas' (LP 'Mistérios e Maravilhas', 1976) Arte & Ofício - 'Contradiction'(LP 'Faces', 1979)Desde 1974 que vários projectos tentavam a sua sorte, como os consistentes Tantra, os Pesquisa, os Arte & Ofício, novamente os Petrus Castrus, invariavelmente o José Cid, Very Nice, os primeiros grupos "punk", como os Faíscas (que depois se transformam nos Corpo Diplomático e, destes, nascem os Heróis do Mar) e os Aqui d'el Rock; surgiam também as primeiras publicações especializadas ("Música & Som", "Rock em Portugal" e mais tarde, o "Sete") e eventos ou festivais musicais (como o célebre que ocorrerá em Coimbra, Festival Só Rock, ganho pelos Alarme). Também serão importantes programas de rádio como o "Rock em Stock", de Luís Filipe Barros, ou a Febre de Sábado de Manhã, de Júlio Isidro; aliás, Júlio Isidro será importante na divulgação de inúmeras bandas e músicos, nomeadamente nos seus programas de televisão. E, nesta caixinha, surgem os famosos telediscos (hoje palavra em desuso) de várias bandas, como o já mítico "Malta à porta", dos Iodo, com a banda a tocar dentro de água, na praia. Era tempo também do "Vivamusica", programa de Jorge Pego, que, na rádio liderava também o "TNT" ("Todos no top"), na Rádio Comercial.

"Óbvia se torna, portanto, a necessidade dos grupos portugueses participarem em espectáculos de forma a que possam contactar com o público e evoluírem formal e tecnicamente. Porque não é o ensaio em estúdio de gravação que contribuem definitivamente para esse desenvolvimento".

João David Nunes
, Música & Som nº 29, de 15 de Abril de 1978

Vários terão sido os factores para o 'boom', mas fundamental foi, seguramente, essa 'bomba-relógio' que era a sede de uma juventude por música nova. E que já se percebia nos concertos que já se faziam um pouco por todo o país, em festas de liceu e associações/colectividades locais. Isto ainda nos fins da década de 1970; os UHF preconizavam o que João David Nunes sugeria às bandas: concertos, concertos, concertos. Nesse particular, estavam bem à frente no seu tempo, com equipamento de som próprio, o qual cediam a outros grupos (como no caso dos Xutos & Pontapés). Porém, essa sede por música, terá sido saciada até à exaustão, mesmo por músicos impreparados e que gravavam apressadamente: o amálgama de sons lusos traduzido em bem mais de uma centena de edições discográficas, invadiu mas igualmente reflectiu o país de então.

Um país algo à deriva, esse mesmo que a Banda do Casaco retratava no seu "Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos...", e que ainda mal despertava para a democracia. Entretanto, a direita portuguesa, com a Aliança Democrática (PPD, CDS e PPM) ganha as primeiras eleições legislativas desde o 25 de Abril, seguindo-se mais tarde um Bloco Central (PPD/PS), deixando em estado de choque quem não julgava possível tal cenário tão cedo. A própria crítica musical não está imune aos fantasmas ali ainda tão perto e tão sentidos, pelo que o conservador "Sete" verá nos Heróis do Mar, o demo, os fascistas que bebem na História portuguesa vil inspiração...

O fenómeno do "boom" esgotar-se-ia rapidamente,enquanto Portugal, para o bem e para o mal, piscava já o olho ao mundo e, em particular, à Europa. Como diziam os GNR, ainda sem Reininho, pegando num tema então actual, a perspectivada adesão à CEE: "Quero ver... Portugal...".

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O Boom
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