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Júlio Pereira e Carlos Cavalheiro, 'Bota Fora', LP, 1974 - Capa e contracapa


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Júlio Pereira e Carlos Cavalheiro, 'Bota Fora', LP, 1974 - 'Gatefold'
Bota fora
JÚLIO PEREIRA / CARLOS CAVALHEIRO

Classificação: quatro estrelas

Audição: Vinil



Quando o cavaquinho era uma guitarra eléctrica
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© António Luís Cardoso [21.Março.2010]


O disco

Bota Fora
, editado em 1975, foi o primeiro LP de Júlio Pereira, embora tenha tido a co-autoria de Carlos Cavalheiro. Acontece que não se tratou de um disco de música popular, mas sim de um rock com uma temática politizada e em prol das revoluções nas (ainda então) colónias portuguesas, como podemos aferir pelo texto incluso no verso da capa:

Bota Fora
Este disco refere-se especificamente a três colónias portuguesas, porque foi nelas que se desenvolveu a luta armada, luta esta que arrastou milhares e milhares de jovens portugueses, para os quais ele é dirigido.
A nossa homenagem estende-se a todos os movimentos que, pelo mundo fora, de armas na mão se necessário, lutam pela libertação dos seus povos, pelo fim da opressão, pela destruição do colonialismo, do neo-colonialismo e do Imperialismo, pela Independência Nacional.

Júlio Pereira e Carlos Cavalheiro

Os dois músicos já haviam editado dois singles (Acid Nightmare, Zip Zip, 1971, e Great Goat, Zip Zip, 1972), integrados num grupo com o nome "Xarhanga" (a reedição recente, não autorizada em cd deste trabalho, assume também esse nome na capa).
É um disco musicalmente datado, mas ainda assim um bom disco de rock. Mas o seu carácter fortemente politizado poderá afastá-lo de uma audição mais descomprometida. É certo que o rock é profícuo em causas, mas aqui surge mais como uma ferramenta, um manifesto e não necessariamente e apenas uma intervenção preocupada dos artistas. As letras são assinadas por alguns dos nossos maiores artistas de intervenção: Sérgio Godinho, José Mário-Branco e Fausto.
Uma das canções mais interessantes é "Pedro soldado", musicando um extracto de um poema de Manuel Alegre.
Curiosa é a ligação entre todas os temas com (os mesmos) sons musicais africanos.


A capa


A capa tem um grafismo excelente, quer a nível tipográfico, quer a conjugação entre elementos de pintura (que sugerem vegetação) em tons de verde com fotografias a preto e branco. As fotografias são da guerra colonial e seus intervenientes, bem como dos próprios artistas, na capa. No interior "gatefold", surgem uma série de fotografias da gravação do disco.
Fotografias de Álvaro João e capa de Eu Jorge.



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Em jeito de remate: a classificação que vou atribuindo aos discos serve apenas como referência, uma "bitola" pessoal que, diga-se em abono da verdade, tem muito mais a ver com uma saborosa nostalgia e gosto próprios do que qualquer opinião especializada.
museudobooom@gmail.com