Discografia || As discografias de bandas e músicos do "boom"
Singles
António Variações - 'Estou além' / 'Povo que lavas no rio', Valentim de Carvalho, 1VCS 1017
António Variações - 'É p'ra amanhã' / 'Quando fala um português...' (1983), Valentim de Carvalho,1 652 917
LPs
António Variações - 'Anjo da Guarda', EMI-Valentim de Carvalho, 1653481
Street Kids - 'Trauma', LP, Vadeca, VN-4007 DB
Maxi-singles
António Variações - 'Estou além' / 'Povo que lavas no rio', EMI-Valentim de Carvalho, 2027726
António Variações - 'É p'ra amanhã' / 'O corpo é que paga', Valentim de Carvalho, Prom. A. V. 1 [disco promo]



Discografia posterior:

O Melhor de António Variações
CD, EMI-VC, 1997

O Corpo É Que Paga
CD-single, EMI-VC, 1997

É P'rá Manhã
CD-single, EMI-VC, 1997

A História de António Variações
CD, EMI-VC, 2006

António Variações surge ainda nas diversas compilações editadas sobre o rock português.
ANTÓNIO VARIAÇÕES
Todos nós temos António na voz

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© António Luís Cardoso [11.Abril.2010]


Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos.

António Variações, O País


António era o seu nome. De família, dos amigos e passou também a ser dos seus admiradores, quando já artista. Mudou o apelido. António Joaquim Rodrigues Ribeiro de seu nome completo, nasceu em Lugar do Pilar, freguesia do Fiscal, concelho de Braga, em 1944. As dificuldades económicas fazem com que apenas com treze anos se encontre já em Lisboa, trabalhando em diversos ofícios.

Mas é a viagem ao estrangeiro em 1975, primeiro Londres e depois Amesterdão, que o molda cultural e até profissionalmente. Torna-se barbeiro e sonha ser uma estrela musical.

Ainda não tinha nascido o mito pop nacional, mas ao regressar, um ano depois, à capital portuguesa estabelece-se como barbeiro/cabeleireiro (o 1º salão unisexo em Lisboa), despertando olhares e atenções com o seu visual colorido e extravagante.

Concorre, sem sucesso, ao lugar de vocalista de uma nova banda, os Corpo Diplomático (onde pontificam Pedro Ayres Magalhães, Paulo Pedro Gonçalves e Carlos Maria Trindade, que formariam depois os Heróis do Mar). Apesar de ter um contrato com a Valentim de Carvalho desde 1977, só com o 'empurrão' de Júlio Isidro, que o apresenta na televisão – "o cantor apresentou-se na TV [programa "Passeio dos Alegres"] vestido de aspirina e lançando "smarties" para o público e para as câmaras..." (Aristides Duarte) –, bem como com a ajuda do irmão Jaime Ribeiro, advogado, consegue fazer vingar tal acordo.

Mas a maqueta que apresenta no programa de Isidro, "O Passeio dos Alegres", tem uma história engraçada e é também fruto de um empurrão de um cliente do seu estabelecimento:

Em 1980, o jornalista Luís Vitta, que cortava o cabelo na barbearia onde António trabalhava, leva os seus colegas do programa da Rádio Re­nascença "Meia de Rock", Rui Pêgo e António Duarte, a contactar com o músico, que ainda não vislumbrava a edição do primeiro disco. Com uma equipa de gravação, Rui Pêgo vai a casa de Variações, toda pintada de verde, e grava dois ou três temas, entre os quais "Toma o Comprimido", que depois toca no programa. Tímido, Variações quase pede desculpa à equipa da RR pelo "incómodo" de lá terem ido a casa!

Bourboneuse, blog "Under Review", 2009


Entretanto, o nome estava escolhido: Variações. Primeiro, para a banda de suporte (António e Variações), depois colado a si, como um alter-ego: António Variações.

A história dos discos é a que sabemos: um primeiro registo (em 45 rotações, versões single e maxi-single, 1982), com alguma dose de polémica, ao conter uma versão pop de "Povo que lavas no rio", homenagem sentida de Variações à sua musa de sempre: Amália Rodrigues. Sacrilégio para alguns puristas do fado, deliciosa inovação para a maioria que projecta, nas rádios e nos 'tops', a outra canção do disco: "Estou além". Curiosa a ideia de não haver lado B, mas sim tratar-se de um duplo lado A.

Segue-se a colaboração com músicos dos GNR para o primeiro álbum, "Anjo da Guarda" (1983), que ainda contará com elementos dos Salada de Frutas na recta final, após desentendimentos na banda do Porto. Zé (Moz) Carrapa, guitarrista desta banda, surgirá mesmo como produtor do disco... [sobre este disco ver maisaqui]

Deste LP sairá o segundo single de Variações, "É p'ra amanhã" (com "Quando fala um português" no lado B) e, em várias discografias na Web surje um maxi-single. Não tenho a certeza da sua edição, conhecendo apenas o 'promo', para as rádios, que está presente no museu e se pode ver ao lado (cujo lado B é diferente: "O corpo é que paga"). Por fim, "Dar e receber" (1984), coadjuvado pelos Heróis do Mar. Ver crítica da revista 'Música & Som'.

António Variações não terá oportunidade de saborear em pleno o sucesso deste disco, pois morre em Junho desse ano. Ainda ouve a passagem dos temas mais rodados nas rádios: "Dar e receber" ou o "O corpo é que paga".

Curiosamente, tanto na edição de Julho como na de Agosto (que traz um 'poster' do cantor) da revista "Música & Som", nem uma única linha sobre a sua morte...

Em 1987 são lançadas as primeiras versões de músicas suas, primeiro pelos Delfins, com "Canção do Engate" (álbum “Libertação”) e depois pela grande amiga do músico, Lena d’Água, com “Estou Alem” (álbum “Aguaceiro”). Lena d’Água fará ainda uma sentida homenagem a Variações, em 1990, editando o LP “Tu aqui”. Cinco temas são inéditos do artista, o que dá nome ao disco e: “A teia”, “Adeus”, “Já não sou quem era” e “A culpa é da vontade”. Ora, estes últimos quatro serão re-gravados pelos Humanos, em 2004 , tendo passado (e ainda se repete pela Web e pela comunicação social) a ideia de que nunca antes teriam sido editados... Pelo meio ficou um disco de tributo, “Variações – As canções de António”, (com Mão Morta, Sérgio Godinho, Sitiados, etc.), editado em 1994.

Importante é que o fenómeno meteórico mas extraordinário que foi António ainda hoje seja recordado e amado. Porque todos temos António na voz. Um pouco por todo o lado surgem versões das músicas do barbeiro fã de Amália e que sonhou ser uma estrela pop. Sonhou, foi e é.


Bibliografia:
ARISTIDES, Duarte, "Memórias do Rock Português", ed. autor (3.ª), 2008

Links:
Música Portuguesa - Anos 80
Under Review
A história de António Variações
museudobooom@gmail.com