[O meu] Museu do Boom do ROCK PORTUGUÊS

Os Trabalhadores do Comércio tornam-se um caso sui generis no panorama musical, pelo humor introduzido no rock luso. Pode mesmo dizer-se que são um dos filhos dos Arte & Ofício, grupo de onde são provenientes Sérgio Castro e Álvaro Azevedo. As duas bandas ainda coexistirão, mas o sucesso que os primeiros alcançam – completa o trio o então miúdo João Luís Médicis – colocam-nos no imaginário colectivo nacional da música. Quem não se lembra de "Chamem a polícia"? Mas engane-se quem julgue que estes Trabalhadores descansam à sombra do passado. Leiam e confiram a entrevista ao hoje emigrante (em Vigo) Sérgio Castro.

António Luís Cardoso

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Memorabilia:

Os Trabalhadores do Comércio no "Sete"

Destaque na "Música & Som"

Capa do "Sete", em 1981

Ver singles no museu:

Trabalhadores do Comércio - 'Lima 5' / 'Que me dizes ao concurso', RPE, RPE-00.05 Trabalhadores do Comércio - 'A cançom quiu abô minsinoue' / 'A chabala do meu curaçom', Gira, GIS-04 Chamem a polícia' / 'Sim soue um gaijo do Porto', Polydor-Polygram, 2063076 Trabalhadores do Comércio - 'Chamem a polícia' / 'Sim soue um gaijo do Porto', Gira, GIRA - 00.06 (edição 'pirata' e mono)
Ver LPs no museu:

LP Tripas à moda do Porto LP Nabraza'
Trabalhadores
do Comércio
Sérgio Castro
em entrevista.

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Os Trabalhadores foram inicialmente uma resposta “raivosa” a várias provocações simultâneas


1. Volvidos tantos anos sobre o ‘boom do rock português’, que memórias restam?

Pois muitas e poucas. Poucas, sempre que necessitamos relembrar algo para as memórias escritas da Banda a publicar em breve, mas demasiadas, quando nos querem impingir a etiqueta de banda dos 80, que nós ostensivamente rejeitamos. Não só porque alguns de nós já arrastamos um passado bem anterior mas, principalmente, porque somos acima de tudo uma banda do século XXI. Não há nada de que nos arrependamos em relação aos anos 80, nem ao final do século XX, mas o caminho faz-se caminhando como dizia o poeta. E, francamente, hoje tudo é melhor, o som, os bons estúdios, os PAs, os monitores, a iluminação, o vídeo...


2. O ‘boom’ precisa de pai? E será o Rui Veloso ou António Manuel Ribeiro?

Porque não o José Cid, na sua época pop? Ou o Garcez dos Pentágono e posteriormente dos Arte & Ofício? Coisas que se dizem. Necessidades de etiqueta para quem não consegue decidir. Como não é um caso biológico, cada um que aproveite e escolha o “pai” que quiser.


3. Um disco e uma banda/músico do ‘boom’?

Se não disser Ar de Rock de Rui Veloso, ninguém me vai perdoar, embora não tenha dúvidas que é um dos discos mais importantes e inovadores que se fizeram na época.


4. Os Trabalhadores do Comércio começaram por ser só um gozo, paralelo aos Arte & Ofício, ou viram logo ali um projecto com pés para andar?

Os Trabalhadores foram inicialmente uma resposta “raivosa” a várias provocações simultâneas: Uma era o Rock Português, outra o “boom” do mesmo, mesmo antes de lhe atribuírem progenitores e, finalmente outra, a pressão contínua da editora dos A&O para que fizéssemos música COMERCIAL, radiável, com singles de 3 minutos e, obviamente, em Português. Como isso era ABSOLUTAMENTE impossível de aceitar, a alternativa foi Trabalhadores. De início pensámos que não iam querer, mas pelos vistos, entrou que nem supositório (pun intended).


5. Cantar em português com sotaque do norte foi uma ironia tendo em conta o facto da banda de onde eram provenientes (o Sérgio Castro e Álvaro Azevedo) cantar em inglês?

Na sequência da resposta anterior, posso afirmar que tudo parecia fazer sentido, incluindo a utilização do sotaque. Primeiro porque é nosso e temos um enorme orgulho nele, depois porque estava mal tratado, e até achincalhado pelo povo “bem falante” da capital. Além do mais era um excelente argumento para rebater as críticas que antevíamos ao facto de contrariarmos a promessa dos A&O, que afirmavam que em Português: Nunca! Aliás, não se tratava de Português mas sim de Portuense, mais tarde tornado mais abrangente com a criação e utilização do neologismo NORTENSE. E afinal acabou a ser diferente, aceitado, quase moda. O Herman recriou personagens dos Trabalhadores e ganhou mais dinheiro que nós com isso.


6. Num grupo com o vosso humor, existir um disco pirata tem – de facto – piada, a esta distancia, ou ainda continuam a não achar piada nenhuma ao caso? O que se passou com a Gira?

Realmente quem não achou piada foi, então, a Polygram. A nós pareceu-nos genial que tivesse ocorrido. Quantos músicos em Portugal se podem gabar de ir a tribunal, defendidos por um brilhante advogado e actor como o Morais e Castro (falecido recentemente), para defender os direitos de royalty?

Eu creio que a nós já nos passou de tudo. Mas essa é a verdadeira essência desta banda: aguentar firme sejam quais sejam as circunstâncias e tentar sempre sacar o melhor partido. Quanto mais não seja, divertimo-nos.


7. Alguém alguma vez vos pregou um calote e desatou a gritar “Chamem a policia”?

Nós já tivemos realmente casos de calotes, mas creio que nunca foram casos de polícia. As situações mais hilariantes passaram-se no princípio dos 80, creio que ambas em 82. Uma no Sorriso da Teté, no Bairro Alto e outra no Magestic na Baixa do Porto. Dois concertos em que a polícia foi chamada a intervir, mas para acabar com “a cantoria” e entrou literalmente quando os chamávamos durante a canção. Em ambos os casos não teve nada que ver com dinheiros. Realmente no Sorriso cobrámos com um chapéu no final de uma actuação acústica. Pouco mais de 350 escudos. Adorámos...


8. Vocês são um caso de devoção à música. Só assim dá para continuar em Portugal?

Ao vivo com Marta Ren

Trabalhadores do Comércio com Marta Ren
(fotografia de Luís Pedro Carvalho)

Só posso falar por nós ou até só por mim, pessoalmente. Aposto que há uns quantos músicos em Portugal que sobrevivem, ou até vivem razoavelmente desafogados, fazendo só música. Pela parte que me toca e da forma como a vejo e me relaciono com a indústria musical, necessito de muita devoção à causa, sem dúvida. Mas penso que o mesmo se passa com a banda e todos os seus actuais elementos. Temos um elenco de luxo, que nos apoia nos concertos, a Diana Basto, a Marta Ren, a Daniela Costa, o Pony (João Ricardo) e que se assumem e assumimos como elementos efectivos dos Trabalhadores e isso graças à sua enorme devoção à causa da música e à da banda. Só podemos estar gratos.


9. E hoje, qual a música moderna portuguesa que ouvem?

Pois, no meu caso, toda a que as rádios nacionais passam. A Best Rock, por exemplo, passa uma boa percentagem de música nacional, misturada com a de importação. A Antena 3 que ouço, tal como a TSF, quando viajo desde Vigo, também passa boa música, de distinto carácter. De resto, no meu caso não é muito fácil, pois vivo noutro país onde a música Portuguesa simplesmente não está na agenda.


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Entrevista efectuada por e-mail, em Maio de 2010.
Um obrigado aos TC pelas fotos disponibilizadas!
Pode aceder à estrutura do museu, através dos links respectivos no menu à esquerda.