[O meu] Museu do Boom do ROCK PORTUGUÊS

Os Pizo Lizo gravaram um único e saudoso single. O som, nas próprias palavras da banda, era "Metal consolidado no balanço do Rock (sem ferrugem)". A entrevista, tal como as demais, tinha uma estrutura proposta à banda. Mas, apesar do contacto ser feito pela Web, os entrevistados, Mário Pimenta e Carlos Perú revelaram-se excelentes comunicadores e, daí, resultam duas perguntas extras, a resposta a duas questões que havia colocado à parte. Embora fosse simples curiosidade, não podiam deixar de ser publicadas – em link, acedido em caixa embaixo. Até porque, aí, a banda revela não só que esteve para existir um LP, como essa fresca e óptima novidade de podermos contar, a breve trecho, com mais músicas recuperadas das cassetes do tempo.

António Luís Cardoso

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Memorabilia:

Notícia no 'Musicalíssimo'

Os Pizo Lizo em 1980

Os Pizo Lizo em 1981


Ver destaque no museu:

Pizolizo - 'Destaque Pizo Lizo no museu' Ver single no museu:

Pizolizo - 'Bomba nuclear
						não!' / 'Sangue no meu mundo', Edisom, 501303
Pizo Lizo
em entrevista.

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A visão de alguns jovens preocupados com o futuro da humanidade e do Planeta


1. Volvidos tantos anos sobre o ‘boom do rock português’, que memórias restam?

A palavra memória suscita-me sempre olhares sobre momentos derramados na distância dos tempos passados, o que não acontece com a arte porque é inexorável na alacridade dos tempos e das épocas, PIZO LIZO não tem idade, basta ouvir os temas...não apenas os que foram publicados, mas as peças que irão estar ao dispor, onde se aflora o tema do aborto, da eutanásia (em versão inglesa), e como era apanágio da época, que compreende uma geração que se preocupou em derrubar preconceitos de âmbito social, e que não teve uma vida nada facilitada com as reformas e ajustes ainda frescos, de um funeral a um regime longo e castrador; daí a contestação de um grupo de jovens que vivenciaram experiências, e no nosso caso, eu e o Carlos, em ambiente agreste conseguirmos cotação para dar nas vistas, e conseguimos gravar um disco... era isto que era difícil, era isto o que todos os músicos procuravam que acontecesse: nós conseguimos com inteligência, com trabalho e dedicação, e acima de tudo acreditámos sempre em nós, embora houvessem e há muitos bons instrumentistas com trabalhos inéditos, mas nós conseguimos contribuir para a cena da música em Portugal, e fazemos parte desse marco da história do Rock Lusitano.


2. O ‘boom’ precisa de pai? E será o Rui Veloso ou António Manuel Ribeiro?

Se o Boom precisa de pai, que seja um pai generoso, nutritivo e gigante nas oportunidades, nunca o António Manuel Ribeiro, mas sim um Júlio Isidro?, porque não?, teria de ser um músico?, bom, então se tem, que seja justamente Rui Veloso. Com ele apresentaram pela primeira vez Pizo Lizo os seus temas inéditos, e pela sua mão tantos outros grupos puderam trazer à luz as suas músicas. Mas o boom foi isso mesmo, foi a erupção de uma corrente musical emergente, por uma geração ainda mais emergente, a cena musical, na poesia, na pintura,... eu diria de modo global.


3. Um disco e uma banda/músico do ‘boom’?

Chico Fininho/Rui Veloso, indiscutivelmente.


4. A letra “Nuclear não obrigado” reflectia um certo medo muito presente na altura... em "Sangue no meu mundo", podemos ouvir: "rasguem os ministros / quebrem as leis / estou cheio dessa treta de Liberdade". As canções do rock nacional tinham mais força reivindicativa à época?

Seguramente NÃO medo, mas um estado de consciência, e de urgência nas prioridades sociais, ainda hoje se discutem em cimeiras Internacionais o tema, acha que “Bomba Nuclear Não” é despropositado e receoso? Ou encontramos claramente a visão de alguns jovens preocupados com o futuro da humanidade e do Planeta? Sim, claro, conforme foi respondido na questão nº 1, éramos muito reinvidicativos e ...


5. Porquê dois baixistas?

Deixe-me responder-lhe com outra questão; porquê dois bateristas no grupo 3 Dog Down? Sempre nos pautámos pela diferença, sempre tivemos objectividade nos projectos, vivenciámos várias experiências musicais, com teclas, com metais, vivemos no mundo do Rythm and Blues, do Blues, tocámos desde igrejas a casamentos, para fazer ideia, a primeira vez que eu e o Carlos Perú tocámos para uma audiência tinhamos 15 anos. Esta foi a composição que desafiava todas as regras das constituições "ortodoxas" do Rock, e o radicalismo estava em conseguir partir ideias fétidas, mas sem fraturar, despertar para problemas actuais mas sem ser vulgar, este foi o nosso legado para a música portuguesa.


6. Os Pizo Lizo ficaram por um single. O que falhou para algo mais?

Foi sem dúvida a questão das convicções políticas, e a luta pela liderança, que desmembrou a banda em duas fatias "não interessa quais", mas de um lado Alfredo e Rui, e no canto oposto Mário e Carlos. No entanto muita coisa foi feita em termos de estrada, de trabalhos ao vivo com espectáculos encenados, onde entroncavam experiências do ponto de vista psicoanalítico no que diz respeito a estudarmos comportamentos, motivando por exemplo uma multidão a desenvolver durante o espectáculo algo. Estamos como se lembra no filme O HERÓI CELULAR/chico fininho, fazendo parte da banda sonora, realizámos uma ópera rock com o título O Bem e o Mal, apresentada no Cine Teatro de Vila Franca de Xira, com música de minha autoria e com alguns poemas também de minha autoria e outros do poeta Júlio Allen Vidal, levámos a cabo a 1ª Maratona do Rock que se realizou também em V.F.Xira, imensas as vezes em Febres de Sábado de Manhâ com esse enorme Sr. que dá pelo nome de Júlio Isidro, na televisão, o Passeio dos Alegres, no Rock Rendez Vous éramos presença assídua, enfim disfrutámos e fizemos uma entrega pessoal até à altura em que se pensa e se passa à prática como sempre fizémos de querer outra coisa para as nossas vidas... E eis-nos a conversar consigo António, muito obrigado.


7. Que projectos desenvolvem hoje?

A título particular, e num âmbito lúdico, o Carlos convenceu-me a recomeçarmos a bater umas malhas do bom Rock, mas profissionalmente terminei Psicologia, e desenvolvo um projecto ligado à Industria Farmaceûtica, sei que o Alfredo Zé se mantém numa postura mais reflexiva que o Rui vive por Espanha agarrado a projectos de construção e que o Carlos tem na sua àrea profissional uma responsabilidade ligada ao comércio, para além dos seus vastíssimos conhecimentos na àrea da informática. Espero ter sido esclarecedor.


8. E que música moderna portuguesa ouvem, agora?

Muito pouca é a música portuguesa que não merece ser ouvida hoje, até o fado, se me deixar dizer, abriu uma lufada de ar fresco com estes novos intérpretes, e esta maneira de nós cantarmos, portugueses; mas deixe-me confessar-lhe que me agrada deveras, perceber a atracção que os jovens músicos sentem pela batida das "cantigas" do boom do rock, e a forma vibrante em como a sentem, prova disso são as novas roupagens a temas dessa altura, e a procura constante desses trabalhos em vinil e em cd, até nas feiras temáticas.


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Entrevista efectuada por e-mail a Carlos Perú e Mário Pimenta, em Maio de 2010.
Até 10 de Julho, também pode aceder à estrutura do museu, através dos links respectivos no menu à esquerda.