[O meu] Museu do Boom do ROCK PORTUGUÊS

Os Salada de Frutas tiveram dois momentos distintos; e ambos de grande qualidade. Um com uma formação que incluia Zé da Ponte, Lena d'Água e Luís Pedro Fonseca e, outro, com Zé da Ponte, Zé Nabo, Quico, Zé Carrapa e Guilherme Inês (estes dois últimos haviam participado como músicos convidados no 1º LP e no single "Robot" já surgem incluídos no grupo). Quando se preparavam para gravar o segundo álbum, na Holanda, dá-se a conhecida cisão, seguindo Lena d'Água e Luís Pedro Fonseca (que já tiveram destaque neste especial 30 anos, no museu, com as respectivas entrevistas aqui e aqui) um rumo diferente. Moz Carrapa fala desta e doutras questões, na presente entrevista.

António Luís Cardoso

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Memorabilia:

Capa da "Música & Som", 1981

Os Salada de Frutas em 1981
(com Lena d'Água)




Ver singles e máxi no museu:

Salada de Frutas -
							'Como se eu fosse tua' / 'Shuy the shock', Rossil, ROSS 7071 Salada de Frutas - 'Robot' / 'Armagedom', Edisom, 501 
							403
Salada de Frutas - 'Se cá 
							nevasse...' / 'Namaptess', Edisom, 505006
Salada - 'Los 
							Bandidos' / 'Crime perfeito', Edisom, 511806
Ver LPs no museu:

Salada de Frutas (Salada)
Moz Carrapa
em entrevista.

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Todos tinham a sua quota
de originalidade



1. Volvidos tantos anos sobre o ‘boom do rock português’, que memórias restam?

A surpresa que foi para mim descobrir que cada novo grupo que ia surgindo, tinha uma identidade musical, uma sonoridade própria, já que a maioria dos músicos vinham da "escola" dos covers, a cópia dos hits importados da indústria anglo-americana. Quando antes se tentava soar igual aos originais de que se gostava, seguiu-se uma diferenciação notável e reconhecível. Todos tinham a sua quota de originalidade.


2. O ‘boom’ precisa de pai? E será o Rui Veloso ou António Manuel Ribeiro?

Foi de facto o Rui que abriu a caixa registadora para a Indústria nacional no que diz respeito ao pop-rock cantado em português. Com as vendas do "Ar de Rock" as editoras abriram a porta a tudo o que foi aparecendo na área até à saturação do mercado. E o verdadeiro pai foi mesmo o Chico Fininho.


3. Um disco e uma banda/músico do ‘boom’?

Tenho dificuldade na escolha. Em geral a criatividade e a técnica não andavam de mãos dadas. Com grande pena minha, onde abundava uma, escasseava a outra. Mas não tenho dúvida de que foi uma década muito interessante e profícua, a de 80.


4. Há dois Salada de Frutas, sendo que o segundo fôlego, incluindo também Zé Nabo e Quico, parecia um super-grupo de músicos experientes, já com grande percurso profissional. Portugal ainda aderiu ao "Se Cá Nevasse" mas não estava preparado para o inovador e experimentalista "Crime Perfeito"?

Aqui também tenho dificuldade em pronunciar-me porque não devia ter havido "dois" Salada de frutas. Há a primeira e legítima formação com a Lena ("Sem açúcar") e a segunda que era outra coisa e deveria ter optado por um novo nome com o "Se cá nevasse" que parece ter sido um óptimo negócio para a editora que ficou só com uma banda quando poderia ter tido duas de igual valia (comercial, pelo menos).
O "Crime perfeito" foi gravado por surpreendente insistência da editora (Edisom) já que o grupo se tinha dissolvido (neste último vinil já nem houve frutas no nome). Quando determinámos o fim do caminho, tinhamos acrescentado vários originais que tocávamos ao vivo mas que não estavam gravados. A convite da editora e porque não tinhamos nada a perder, juntámo-nos para criar mais uns temas para povoar os dois lados do LP e fomos para o estúdio do Zé Fortes, o Angel2, gravar. A mistura foi feita na Holanda onde tinhamos gravado o skanevasse com o Ronald Prent, excelente engenheiro de som.


5. O Moz Carrapa teve uma participação naqueles anos loucos não só como músico mas também como produtor. Como foi essa experiência?

Aprendiz de feiticeiro foi o que fui como produtor. Apesar de ter sido um privilégio trabalhar como tal, não passei de aprendiz. Outros há com melhor perfil do que eu.


6. Numa entrevista ao site da SPA, refere as pressões da editora Edisom para expulsar a Lena d'Água. Muitos músicos desse tempo queixam-se das editoras que, mais do que nunca, tiveram uma atitude manipuladora com o fim de explorar o filão. Pode comentar?

Não foram pressões da Editora mas sim conivência. A Edisom era uma sociedade que incluia o Zé da Ponte, da qual também tinha sido sócio o Luis Pedro Fonseca, também cilindrado nesta acção. A decisão foi colectiva e lamentável.
Sobre os A&R das nossas Editoras em geral, é minha convicção que eram (e muitos ainda são) culturalmente ignorantes e inaptos para o lugar que ocupam. Vão disparando às cegas e nalguma coisa hão-de acertar. Pelo caminho sacrificam artistas, muitas vezes destruindo anos de trabalho e investimento alheio com uma péssima escolha de repertório. Na maior parte dos casos, só se pode falhar uma vez: a primeira, quando se escolhe o tema para a promoção porque não há segunda oportunidade.


7. Diz ainda, na mesma entrevista: "Fui aprendendo e hoje rapidamente consigo perceber se os caixotes não valem um caracol, as colunas estão arruinadas e os altifalantes desfasados". Dá-lhe mais prazer tocar ou a sua paixão pela questão técnica do som?

(Essa entrevista foi-me feita sem gravador, por alguém que poucas notas tirou e que conseguiu desvirtuar o sentido de uma grande parte do que eu lhe disse. Alterou datas, confundiu nomes, trocou ou acrescentou adjectivos... Na transcrição da oralidade não há lugar a sinónimos nem arredondamentos; cada palavra é! Da comunicação social escrita já conhecia o género fantasioso ou deturpador, mas como era para a revista da SPA nem me lembrei de pedir para ler/rever antes da publicação.)
As técnicas do som são um complemento à actividade como instrumentista, que é a que me dá mais prazer, de preferência com músicos amigos e tocando música dos mesmos.
É a melhor das terapias ocupacionais.
Também aqui sou aprendiz de feiticeiro; sou auto-didacta e só ponho a mão onde não haja oportunidade de alguém fazer melhor do que eu.


8. E, hoje, que projectos?

Difíceis de definir. Continuo a comprar guitarras, microfones e hardwares vários com o mesmo objectivo de sempre: tocar, compor, gravar, sem estar na dependência de editoras nem estúdios de gravação.
No último par de anos, o mais relevante para o exterior que tenho feito com a guitarra é a colaboração no trabalho a solo do Tim, em disco e ao vivo.


9. Qual a música moderna portuguesa que ouve, agora?

Indiscriminada. Vou ouvindo o que "passa" mas não procuro. Há mais e melhores instrumentistas, há criatividade qb. Admiro, só por isso, quem se consegue fazer ouvir nos dias que correm.
Mas o que eu gosto mesmo é de tocar. Seja o que for, com amigos.

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Entrevista efectuada na rede "Facebook", em Maio de 2010.
Até 10 de Julho, também pode aceder à estrutura do museu, através dos links respectivos no menu à esquerda.