[O meu] Museu do Boom do ROCK PORTUGUÊS


António Manuel Ribeiro foi um poeta quando o rock português se alastrou pelo país. E foi, igualmente, um rocker à altura. Desde então – e já lá vão mais de 30 anos –, continua com a sua paixão e sonho. Os UHF. O público corresponde e a crítica nem sempre. O que importa são as canções e essas ficam sempre. Deixemos a palavra ao mestre das palavras.

António Luís Cardoso

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Memorabilia:

Crítica ao single
"Cavalos de Corrida"


Notícia sobre concerto
em Almada


Publicidade a concertos
em Agosto de 1981



Ver destaques no museu:




Ver os LPs no museu:








UHF
Entrevista a António Manuel Ribeiro

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... e sempre uma nova canção
para escrever




1. A eterna questão do pai do rock português... há quem diga que é o António e não o Rui... considera-se um dos pais do rock nacional?


Quando em 1980 o Rui Veloso lançou o “Ar de Rock” já nós tínhamos editado o EP “Jorge Morreu” (1979) e íamos a caminho da primeira centena de concertos. Acho que o marketing da editora Valentim de Carvalho trabalhou muito bem ao colar a imagem de ‘pai do rock português’ ao Rui, e isso nada me incomoda. Hoje, trinta anos passados, sei que demos início a um dos mais importantes movimentos de renovação da música portuguesa. Nesta história, duas canções são ‘as culpadas’: “Chico Fininho” e “Cavalos de Corrida”. Um dia estudar-se-á a importância sociológica da palavra que o Carlos Tê e eu próprio trouxemos para esse movimento de renovação, só comparável à música de intervenção, antes do 25 de Abril de 1974.


2. Volvidos tantos anos sobre o boom do rock português, que memórias restam?


Quem me conhece sabe que eu tenho memória de elefante, lembro-me por isso de muita coisa, peripécias, pessoas, sítios, estradas antes das auto-estradas. Recordo a glória de subir e descer o país sem tempo para dormir, para chegar em cima da hora de mais um concerto. Lembro-me dos palcos antes de serem palcos; das aparelhagens de som que estoiravam a meio; da corrente eléctrica que ia abaixo com a nossa parafernália; lembro-me disso e de muito mais, de amores e desamores, corridas, acidentes, novas guitarras, noites até nascer o dia, aventuras e olhar apaixonado pelo primeiro disco de ouro (não havia platina) ganho; e sempre uma nova canção para escrever.


3. Um disco e uma banda/músico do boom?


Três discos: “Ar de Rock” do Rui e “À Flor da Pele” dos UHF. Em 1981 os Táxi e o seu primeiro LP.


4. Os UHF foram uma autêntica instituição no boom, padrinhos de outras bandas como os Opinião Pública, Iodo ou Xutos & Pontapés, mas ainda eram uns miúdos... sentiam essa responsabilidade?

Provavelmente fui das primeiras pessoas nesse tempo a pensar que ‘aquilo’ podia continuar e resultar numa carreira, contrariando a ideia generalizada de que a música era uma actividade marginal e que mais dia menos dia era precisa mudar de vida, arranjar um trabalho ‘decente’, casar, calar, ter filhos, envelhecer. Mostrei a minha experiência e o meu ponto de visto a outros – não queria fazer um sindicato; queria despertar as consciências e criar defesas. Fiquei sozinho a pregar no deserto, como sabem os mais próximos. Não desisti; vi muitos ficarem pelo caminho e outros caírem na praia de todas as vaidades.


5. É conhecido o seu amor pela poesia. As palavras – um dos pilares dos UHF – vivem para além das canções?


Vivem e muito. Esse é privilégio idiossincrático do rock português: nós falávamos das coisas do nosso tempo e desta sociedade peculiar que era/é a nossa. Foi a grande vitória do nosso movimento musical: os jovens, e até os menos jovens, ansiavam por qualquer coisa nova e nós fomos essa novidade pós-revolução. Nos UHF as palavras ficam e são guardadas como símbolos por quem as entranhou um dia. É o que me dizem; é o que oiço e sinto.


6. Os UHF têm tido, ao longo dos anos, uma base de apoio e carinho do público e um certo afastar da crítica. Há razões que a razão desconhece?

Já falei, no tempo certo, o suficiente sobre isso. A música e o mundo à sua volta, a chamada indústria onde se devem incluir os meios de divulgação, reflectem primorosamente o estado a que este país chegou: de costas voltadas, em discussões estéreis, com manias, receio e incapacidade para decisões. É uma nova era barroca, tão modernaça quanto gongórica, fútil, descabida, incoerente, p’ra hoje. Quem, no meio desta azáfama sem sentido, se afirma, decide e escolhe um rumo fora do rebanho, paga tributo. Em Portugal, é penoso ter-se razão antes de tempo.


7. Vai ser como na frase do Palma: enquanto houver estrada para andar?


Acho que sim, ele sabe o que eu sei. Gostamos do que fazemos, as pessoas gostam de nós, uma canção pode ser um ponto de viragem para muita gente, um alerta, uma paixão, um sorriso novo. Nós somos os trovadores, de terra em terra.


8. Olhando para discos e discos, pode escolher um filho dilecto?

Com tanta ‘vida’ gravada é impossível ter um só disco preferido. Assim: “À Flor da Pele” (1981), por ser o primeiro e apontar os caminhos futuros; “Noites Negras de Azul” (1988), por tanto encanto e inspiração; “Santa Loucura” (1993), um autêntico arquipélago de canções; “La Pop End Rock” (2003), grandioso, elaborado e maturado – mas o melhor de todos vem aí e chama-se “Porquê?”.


9. E hoje, qual a música moderna portuguesa que ouve?


Oiço o que me toca, que compro para analisar, mas há uma espécie de beco sem saída onde a malta se deixa cair, as imitações do que está a dar, sem nada de novo, o uso e abuso do ‘anglês’, assim com ‘a’ em vez do ‘i’, um fio de música desinteressante, exceptuando algumas aventuras curiosas. Oiço quase tudo o que se faz, da minha geração, da intermédia e da mais recente.

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Entrevista efectuada por e-mail em Maio de 2010.

Até 10 de Julho, também pode aceder à estrutura do museu, através dos links respectivos no menu à esquerda.