[O meu] Museu do Boom do ROCK PORTUGUÊS
Um começo de fininho

© António Luís Cardoso
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Folheando o semanário "Sete", ao longo do Verão de 1980, percebemos que também os jornalistas foram apanhados de surpresa pelo inesperado sucesso de um músico do Porto. Habituados a escrever sobre música vinda de além fronteiras – com especial incidência na anglo-saxónica –, os escribas da música não estavam habituados ao sucesso discográfico da música moderna portuguesa. Ainda passavam poucos anos da revolução de Abril e os olhos estavam colocados sobretudo nos cantores de intervenção ou baladeiros... quanto muito, faziam notícia e enchiam os 'tops' a música ligeira do recorrente Festival da Canção.

Desta forma, ninguém esperava que o público nacional aderisse massivamente a rock feito e, principalmente, cantado em português. Veja-se, por exemplo, o que escreve o jornalista Manuel Dias a propósito de um concerto de Roy Harper (músico inglês que colaborou com os Pink Floyd) e da má recepção do público: "Todos conhecemos o comportamento do público português perante grupos portugueses em festivais ou espectáculos que envolvam estrangeiros. Só que desta vez, nem o estrangeiro escapou" ("Sete", n.º 113, 06/08/1980).

Não há coincidências e o LP "Ar de Rock", de Rui Veloso, não aparece nas regulares secções de críticas de discos da revista "Música & Som"; quase passa despercebido – embora o "Sete" vá publicando notícias falando, timidamente, de um disco que poderá dar que falar –, e o fenómeno que começa na rodagem das rádios e nos concertos é paulatino. Quando, finalmente, a crítica especializada decide opinar, o disco é já um sucesso nacional. E, aí, não o recupera para tais secções, mas antes para destaques de página inteira, como o faz o "Sete", com a análise pormenorizada, tema a tema, na edição de 17 de Setembro, n.º 119, por António Duarte.

Por outro lado, podemos suspeitar que era algo que o meio (músicos, editoras, publicações especializadas) gostava que acontecesse. Como não haver espaço na música nacional para a música moderna?

Em entrevista ao museu, que será publicada no próximo dia 12, António Manuel Ribeiro fala-nos de uma boa campanha da Valentim de Carvalho quanto à promoção de Rui Veloso como pai do 'boom' e (até) do rock português. Lembra-nos ainda Luís Pedro Fonseca (em entrevista a publicar dia 14) que em 1970, integrado nos Chinchilas, representou o rock de Portugal num concurso internacional.

É um facto que o êxito do tema "Chico Fininho" terá aberto portas a outros projectos – embora, curiosamente, tenham sido os Táxi a alcançar o primeiro disco de ouro do rock nacional, no ano seguinte. Mas, o vocalista dos UHF tem razão no 'marketing' que acabou por envolver e, inclusive, preocupar o próprio Rui Veloso. Por outro lado, é verdade que já antes, havia rock português, como Luís Pedro Fonseca bem afirma: nos anos anos 60 com os grupos do ié-ié, como Quinteto João Paulo ou Sheiks (que regressam em 1979) e nos anos 70, com Petrus Castrus, Beatnicks, Tantra, Arte & Ofício, etc.

Podemos considerar que o 'boom' não é um acontecimento isolado em redor do sucesso do LP idealizado por Veloso e em grande parte pelo Carlos Tê, apadrinhado pelo incansável António Pinho. É crucial, como bem têm lembrado pessoas como Aristides Duarte, o ano de 1979, com várias bandas a fazerem concertos um pouco por todo o país, quer em liceus, quer em salas de espectáculo. Tentando acompanhar os veteranos Tantra e Arte & Ofício, já rodavam bandas como Pesquisa (depois Táxi) ou Xutos & Pontapés, mas sobretudo os UHF que, com um EP editado ("Jorge Morreu") e sistema de som próprio, acabam por ser alavanca para muitas bandas (os próprios Xutos & Pontapés, Iodo, Opinião Pública, etc.).

Igualmente importante revelou-se o facto de existirem programas de rádio receptivos ao rock português (dinamizados por António Sérgio, Rui Pego ou Luís Filipe Barros), bem como o patrocínio do multifacetado Júlio Isidro, através do célebre "Febre de Sábado de Manhã" e do programa de televisão "Passeio dos Alegres". Há ainda quem aluda ao conflito entre artistas consagrados da música portuguesa e as editoras, o qual abre espaço para outros músicos, em início de carreira, gravarem. O que é certo é que o caminho estava preparado. Faltava a centelha de um 'blues man' do Norte de Portugal.

Capa
Primeira chamada de capa sobre Rui Veloso, no semanário "Sete"
(n.º 116, 27 de Agosto de 1980)



Pub UHF
Publicidade a concertos dos UHF, na estrada desde o ano anterior
(n.º 116, 27 de Agosto de 1980)



Capa
Capa da Música & Som com Rui Veloso, "Prémio Revelação" de 1980 – sendo também a primeira capa da revista alusiva à nova vaga do rock português
(n.º 61, Fevereiro de 1981)
Até 10 de Julho, também pode aceder à estrutura do museu, através dos links respectivos no menu à esquerda.