Destaque LP || Os 33 rotações do "Boom"
Forte e feio
NZZN



Audição: Vinil



A rasgar pelas espiras do vinil
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© António Luís Cardoso [Maio.2010]


O LP dos NZZN é o álbum escolhido para representar os rockers mais pesados do boom. Mas podiam ter sido outros, como "Vidas" dos Ferro & Fogo, "Caras e taras" dos Seilásié, “Mundo louco” dos Rocktrote ou “...a quem doer” dos Doyo. Ou ainda, os mais conceituados Roxigénio (qualquer um dos três álbuns) ou Go Graal Blues Band ("Blackmail"). Até o 33 rotações de estreia dos Xutos & Pontapés, na esteira do single "Sémen", tem um toque hard. Não agora, mas a seu tempo, estes álbuns passarão por aqui (sendo que na secção "discografia" se levanta um pouco o véu dos Roxigénio).


O disco
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Forte e feio é o registo discográfico que sucede aos dois singles de estreia dos NZZN, os quais haviam tido algum sucesso nas rádios e nomeadamente no programa Rock em Stock. Tal como sucedeu com diversos outros casos – CTT, FM, Ferro&Fogo, Iodo, etc. –, esta banda lança o seu álbum em 1982, ano de autêntica ressaca do 'boom', em que os músicos tentavam a sua afirmação no formato maior, ou seja, em long play.

Por uma questão comercial, ainda surge no alinhamento o tema "Vem daí" (2.º single), mas a aposta é feita nos novos temas, como "Brigada rock" ou "Heavy metal".

As letras oscilam entre a crítica satírica à sociedade – "Infrindo a Lei", "Participe no concurso", "Morde aqui... a ver se eu deixo" – e ao próprio sistema – com o tema com o sugestivo título "Desgoverno (Nacional)" e também "Paga e não bufes". Esta última canção é sobretudo o afirmar da camada social dos músicos representando então uma vida de trabalho operária, sempre com o dinheiro a faltar e a ir todo para impostos – uma temática recorrente, lembrando, por exemplo o "Dia de S. Receber", dos Xutos & Pontapés, anos mais tarde.

Nós éramos uma banda de "covers" de Van Halen e AC/DC. Começámos a tocar na zona de cascais e a certa altura fartámo-nos de fazer versões e resolvemos fazer originais.
Zica

As malhas musicais são sempre muito certas, ritmicamente, sobressaindo as guitarras e uma estética vocal muito perto das bandas dos anos setenta do hard-rock. Curiosamente, ficam saudades do baixo em Vem daí, assumido por Zé Nuno nos dois singles (no LP, nos restantes temas, o crédito é de "Paulo").

É um álbum que se ouve com agrado, à distância, pesem embora as lacunas técnicas sentidas no som, onde sobressaem algo inusitadamente os agudos [o esforço técnico em termos de gravação e produção dos profissionais envolvidos (Pedro Vasconcelos, Tó Pinheiro da Silva e Mike Sergeant), não teve a sonoridade desejada pelos músicos, como refere Zica: "Foi um desastre, a crítica não perdoou, e como o álbum se chamava "Forte e Feio" ainda mais pancada recebemos"].

Terá falhado a falta de sensibilidade e/ou experiência para um género então (e ainda hoje) não muito comum pelos estúdios portugueses.



A capa
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A capa é uma ilustração interessante que inclui a própria tipografia, sendo o nome "NZZN" uma coluna de fumo que sai de um veículo (a fazer lembrar um 'truck car', tractores modificados), o qual circula sobre as palavras "Forte e feio". O desenho aguarelado parece remeter-nos ainda para um universo da banda desenhada, nomeadamente pelo traço e desenho de letra. A composição da contracapa (que repete, em menores dimensões a ilustração da capa) e innersleeve(com as letras) não tem qualquer arrojo gráfico, valendo pelas diversas fotos da banda.

Capa da autoria de Carlos Filipe e fotografias de Paulo Crossas.


Bibliografia:
ARISTIDES, Duarte, "Memórias do Rock Português", ed. autor (3.ª), 2008

Links:
Música Portuguesa - Anos 80
My Space

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Em jeito de remate: a classificação que vou atribuindo aos discos serve apenas como referência, uma "bitola" pessoal que, diga-se em abono da verdade, tem muito mais a ver com uma saborosa nostalgia e gosto próprios do que qualquer opinião especializada.
museudobooom@gmail.com