Destaque LP || Os 33 rotações do "Boom"
Anjo da Guarda
ANTÓNIO VARIAÇÕES



Audição: Vinil



Um LP recheado de uma pop... popular
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© António Luís Cardoso [11.Abril.2010]


O disco
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O primeiro disco "long play" de Variações veio, de facto, provar que o sucesso do single de estreia não fora um acaso, um êxito único de um artista, tão recorrente na História da música. E seria para esta, a História da música, que "Anjo da guarda" ficaria como um um dos melhores álbuns portugueses de sempre. E, logo, não só de 1983.

António Variações - 'Voz Amália de nós'O álbum tem a particularidade de iniciar ambos os lados com os sucessos dos discos: o lado A abre com "O corpo é que paga" e, o lado B, com "É p'ra amanhã". Isto se pensarmos que "Estou além", editado um ano antes em single e maxi-single, apenas foi incluído no LP para, digamos assim, compor o alinhamento, num confuso processo de gravação. Isto porque a fase inicial do disco estava sob a responsabilidade dos músicos Toli e Vitor Rua. Estes elementos dos GNR desentenderam-se entretanto, levando o primeiro a sair da banda que, à sua revelia, continua. Este episódio afecta a produção do LP de estreia de Variações que, nesta fase tinha apenas cinco temas gravados, levando a que entre em cena Moz Carrapa (dos Salada, antes Salada de Frutas) que assumirá a produção do disco embora seja só responsável por quatro temas, a que se juntarão os cinco já gravados, e, ainda, como se referiu, "Estou além".

O disco resulta, desta forma, numa manta de retalhos – como bem o refere o bloguista Bourboneuse, em 2009 (ver links no fim do texto) – mas de excelente qualidade, constituindo, no rescaldo do 'boom', uma pedrada no charco na música portuguesa sendo notado e referenciado por público e crítica. Variações consegue ser moderno e ainda assim, soar a pop, soar a rock, soar a folclore... um pop muito popular. Basta uma audição de "Quem feio ama..." para perceber o tal som entre Braga e Nova Iorque.

O País todo, numa das suas poucas manifestações de inteligência, dançou com António Variações, que se tornou um dos mais populares artistas portugueses que não imita o Marco Paulo ou as Doce, que ousa enfrentar as convenções e os hábitos, permanecendo original e corrosivo sem ir parar ao lugar-comum; “Anjo da Guarda” é o elhor disco do ano, a garantia de que o melhor cantor popular português não é um autor de singles, de talento esgotado em duas canções, e sim o mais moderno criador de Portugal.

Rui Monteiro (Música&Som, Janeiro de 1984)


Outros temas, como "Anjinho da Guarda", "Visões – ficções (Nostradamus)" ou "Quando fala um português", também têm uma boa rodagem nas rádios. Particularmente, lembro-me de gostar muito de "Sempre ausente" e "Onda morna" que ouvia repetidamente, ou como hoje é comum dizer-se, na era digital, em "repeat".

O disco fecha com uma (natural) homenagem a Amália Rodrigues: "Voz-Amália-de-nós"; recordo-me também de se falar, à época, de um crachá que Variações usava, por si criado, com o rosto da musa do fado e com a frase "Viva o rock". Faz sentido. Toda a música do artista vive de elementos, poemas e ritmos que encaixam bem na provocação, no desafio e na novidade. Ainda hoje (e sempre?) actual.



A capa
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A capa é de uma beleza própria do universo de Variações. Onde também e sempre entra o próprio artista, confrontado aqui com um manequim, ao qual se sobrepõe (curiosamente) o título do álbum: "Anjo da Guarda". A conjugação das cores – rosa, verde, azul ... – entre a fotografia e a tipografia seria improvável noutro disco. Mas aqui resulta bem. Como a contracapa, com uma pintura com um anjo a proteger um menino que, integrado num grupo de crianças, brinca à cabra-cega. Uma analogia curiosa com a vida, como se alguém dominasse os nossos sentidos e a guiasse, por nós.
A autoria é do próprio, bem como de José Manuel Cruz e Silva, Rui Gonçalves, Francisco Vasconcelos e David Ferreira.
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Bibliografia:
ARISTIDES, Duarte, "Memórias do Rock Português", ed. autor (3.ª), 2008

Links:
Música Portuguesa - Anos 80
Under Review
A história de António Variações

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Em jeito de remate: a classificação que vou atribuindo aos discos serve apenas como referência, uma "bitola" pessoal que, diga-se em abono da verdade, tem muito mais a ver com uma saborosa nostalgia e gosto próprios do que qualquer opinião especializada.
museudobooom@gmail.com