Destaque LP || Os 33 rotações do "Boom"
Opinião Pública

LP
DOZE 998
Editora: Rotação / Rossil
Ano: 1982

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No sul da Europa
OPINIÃO PÚBLICA

Classificação: 3,5

Audição: Vinil


© António Luís Cardoso [01.Outubro.2009]


O disco
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Antes de mais há que perceber que estamos perante um disco de culto, não só do "boom" mas também da própria música portuguesa. "No sul da Europa" é um LP que não é fácil encontrar hoje e, muito menos, em cd, cuja edição (a par de tantos outros) não se vislumbra.

Seguindo-se ao single "Puto de rua", igualmente mítico e tão projectado, hoje, no estrangeiro (integrando a colectânea PowerPearls”), o álbum tem como produtor o líder dos UHF, António Manuel Ribeiro. Esta banda, como se sabe, era uma referência para muitos projectos da altura, face a um profissionalismo ao vivo pouco comum. E os Opinião Pública não foram excepção. Aliás, as duas bandas, em conjunto com os NZZN, os Iodo e os Xutos, haviam formado uma empresa para os espectáculos: GRR (Grupos Rock Reunidos).

A marca do criador dos UHF está bem presente no álbum, nomeadamente no modo como a voz surge tão próxima das vocalizações de António Manuel Ribeiro (os temas do lado A: "Ritmo de vida" e "Na terra", bem como "Subúrbio", lado B, são bons exemplos).

Apesar disso, ou aliás, se não virmos nesse pormenor um obstáculo à audição, o álbum mereceria o sucesso que (então não teve). Esta banda, hoje rotulada como Powerpop (mais um rótulo...) apresentava letras com qualidade (tão raro à época...):


Trago os lábios secos
esta sede sem fim
o corpo cansado
deste medo de mim
("sem mim" na letra inclusa no insert)

Sem destino (Pedro Lima)

... e rasgos musicais de muito interesse. Para tal terá concorrido o facto da banda estar vinculada a uma pequena editora (Rotação), a qual não teria grandes meios de promoção; é o que Pedro Lima acaba por recentemente reconhecer (na entrevista citada na coluna ao lado).

A generalidade dos temas aborda questões introspectivas e de forte componente social – seguindo o exemplo de Puto de Rua, também incluído no álbum, com nova roupagem. Sul da Europa (que dá título ao LP), é uma letra incisiva sobre o Portugal de então, e a moda, o gadget dos 80, estão presentes em Walkman. Podemos mesmo dizer que em todo o álbum está presente uma ideia social crítica ("Não te esqueças da pílula, miúda", in Na terra; "Cumprindo as regras/andamos assim às cegas", in Cumprindo as regras).



(...)
a banda preocupava-se em apresentar umas letras que revelavam uma forte consciência social e crítica a um certo estado de coisas em Portugal.
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No Sul da Europa" mostra-nos uma banda com um som muito próximo da "new wave" e com algum potencial para vingar.

Aristides Duarte



Musicalmente, a banda entrega-se a um ritmo muito pautado pelas guitarras (não esquecendo um seguríssimo baixo) e bateria, num registo rock sem artificialismos. O que hoje é comum chamar-se de um som limpo.

Uma nota final sobre a nova "roupagem" de Puto de Rua, tema editado em single. No álbum surge já mais limado, fugindo um pouco à frescura de autêntico manifesto trazida pelo 45 rotações.


A capa
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A capa é interessante, com um desdobrar da mesma foto em três partes, crescendo na diagonal. A foto é uma rua tipicamente portuguesa, onde se destaca a luminosidade de um candeeiro e, ao fundo, um túnel/passagem. A tipografia é moderna (apelando a uma linguagem maquinal/informática, então tão ainda em perspectiva quanto ao uso comum e massivo dos dias de hoje) e em tons laranja, no topo superior esquerdo.
A foto repete-se (invertida) a preto e branco tanto no verso como na monofolha com as letras.

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Bibliografia e links:

Memórias do Rock Português, ed. autor, 3.ª, 2008, pp. 94-95.

Hoje há punk-rock no liceu

Música Portuguesa - Anos 80



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Em jeito de remate: a classificação que vou atribuindo aos discos serve apenas como referência, uma "bitola" pessoal que, diga-se em abono da verdade, tem muito mais a ver com uma saborosa nostalgia e gosto próprios do que qualquer opinião especializada.