Destaque LP || Os 33 rotações do "Boom"
Rui Veloso

LP
6330073
Editora: Philips/Polygram
Ano: 1981

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Heróis do Mar
HERÓIS DO MAR



Audição: Vinil


© António Luís Cardoso [01.Outubro.2009]





O disco
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Este deve ser, seguramente, o disco mais polémico do "boom". Nem o calão do "Patchouly" retira tal "distinção" ao álbum de estreia dos Heróis do Mar.


Perceber porque tal aconteceu, embora os Heróis do Mar refutassem sempre tais acusações, não é difícil. Os anos quentes da Revolução de Abril ainda estavam muito presentes e alguém que apelasse aos Descobrimentos, a um certo sentido patriótico, "cheirava" a Estado Novo. O mesmo Estado Novo que tanto privilegiou determinados períodos da História nacional, empolando-as muitas das vezes, como foi o caso da Expansão Marítima.

A própria estética da banda, com fatos próprias, bandeiras e uma pose militarista enfureceu muita gente e, entre estes, os jornalistas do "Sete", semanário dedicado ao entretenimento e cultura.

Houve exagero na reacção à atitude (provocatória ou apenas estética?) da banda e teceram-se comentários que seguramente hoje são, senão inócuos, pelo menos pouco importantes.

O que é certo é que o LP agrega um bom punhado de canções, ainda pejadas de alguma inexperiência musical (principalmente tendo em conta a evolução que a banda terá nesse aspecto), mas repletas de força e algumas já apontando um ritmo dançante das próximas experiências. Certo ainda que comporta uma das melhores canções de sempre da música portuguesa, "Saudade" (mais tarde gravada pelos Ritual Tejo).

É um bom álbum de estreia e seguramente dentro do melhor que se fez no "boom", percebendo-se desde logo a importância que Pedro Ayres Magalhães (o famoso "Dedos tubarão" dos Corpo Diplomático) já tinha na banda, ao assumir grande parte das letras e, com os restante Heróis, nas músicas.

Por outro lado, começa o 'calvário' de Rui Pregal da Cunha, repetidamente apontado como a pecha do grupo, como um vocalista sofrível, algo que será mais notório no segundo álbum ("Mãe").

Quanto ao colectivo é notório que, desde logo, quer tomar as rédeas de todas as componentes do projecto, nomeadamente opinando sobre a própria capa.

O álbum não será um enorme sucesso de vendas mas o maxi-single que se segue, "Amor", rebentará com todas as escalas de vendas no panorama nacional de então.


A capa
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A capa, quer pelo grafismo, quer pelas fotos interiores, aponta para a tal polémica de uma representação neo-fascista que, grosso modo, muita gente começou a acreditar que assim era. Da autoria de António Campos Rosado, sob ideia da própria banda, é esteticamente muito apelativa, tendo como elemento principal uma Cruz de Cristo (no topo, à direita). Na contracapa e na folha inclusa com as letras, fotografias da banda, da autoria de Chico Graça, com as tais roupas 'militaristas' (no disco, "Roupas de César"), concebidas por Jorge Virgílio,e bandeiras, em poses muito pensadas; na folha, a impressão é a uma única cor (sépia) e ocupa totalmente um dos lados.


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Em jeito de remate: a classificação que vou atribuindo aos discos serve apenas como referência, uma "bitola" pessoal que, diga-se em abono da verdade, tem muito mais a ver com uma saborosa nostalgia e gosto próprios do que qualquer opinião especializada.
museudobooom@gmail.com